Por CLARA ALBUQUERQUE
"Caçadores de Emoção"
Direção: Kathryn Bigelow
Ano: 1991
País: Estados Unidos
Gênero: Ação, Aventura, Policial, Drama, Thriller
Título Original: Point Break
Esta semana aconteceu um evento de moda em Salvador e, no meu eterno diálogo entre o futebol e o “cor de rosa”, tive contato com um grupo de torcedoras bem específico e peculiar.
Surpreendentemente, muitas moçoilas que desfilam naqueles saltos altíssimos adoram futebol. Elas, como a maioria das mulheres, também prestam muita atenção na beleza de Kaká, no charme de Cristiano Ronaldo (tudo bem que algumas não sabiam quem ele era) e no porte de Adriano, unanimemente citado para minha surpresa no quesito beleza no futebol. Mas o que me chamou atenção foi o fato delas me dizerem que gritam, sofrem, torcem e xingam mesmo sem saber a escalação ou o esquema tático do time, o que é exatamente o impedimento ou porque o árbitro apitou a todos os momentos. Quem é o técnico? Mero e dispensável detalhe.
Em nossa petulância particular, achamos que amamos o futebol mais do que qualquer pessoa, principalmente das que não entendem tanto, e terminamos nos perdendo em números, esquemas táticos, saldo de gols e estatísticas.
Esquecemos que a melhor parte do futebol é o sentimento, o grito de emoção e não apenas os três pontos na tabela. Deixamos muitas vezes o nosso lado analítico tomar conta da nossa inquieta parte torcedora, capaz, simplesmente de sentir. É aí que mais uma vez, recorro ao mestre Nelson Rodrigues, em texto de 1955, para continuar esta coluna: “Naquele tempo tudo era diferente. Por exemplo: - a torcida feminina uma ênfase, uma grandiloquência de ópera. E acontecia esta coisa sublime: - quando havia gol, as mulheres rolavam em ataques. Eis o que empobrece liricamente o futebol atual: - a inexistência do histerismo feminino. Difícil, muito difícil, achar-se uma torcedora histérica”.
Com o crescimento da paixão pelo futebol dos anos 50 pra cá e da presença feminina no esporte, nas arquibancadas ou entre as quatro linhas, talvez hoje seja mais fácil encontrar estas torcedoras. Muitas delas provavelmente estavam nos desfiles das grifes que assisti. E na minha paixão analista, percebi que elas têm muito a nos ensinar. A gente pode saber todas as regras, todos os campeonatos, a posição e as peculiaridades de cada jogador, mas na verdade se alguém é capaz de distinguir um time do outro e souber que a equipe que marcar o maior número de gols vence o jogo, pode curtir e se descabelar do mesmo jeito, ou até pior. Afinal, pra ela, não faz diferença se o gol foi feito pela equipe tecnicamente mais fraca ou se o jogo está parecendo o baba ali da esquina. Tudo bem, pode até comemorar um gol que nós já percebemos que será anulado, mas ao menos a transição em segundos da euforia para a tristeza estará lá. No fim das contas, se você gosta de futebol, sabendo quem é Cristiano Ronaldo ou não, espero que você tenha, um pouco ao menos, da torcedora histérica que deixou saudades em Nelson Rodrigues, em você.
* Coluna também publicada em O correio, de Salvador, na Bahia

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