Por VANESSA RUIZ
Os dias que passaram foram de folga, como serão os seguintes até que eu volte a trabalhar em São Paulo x Barueri e na transmissão do GP de Abu Dabi (daqui do Brasil). Nem por isso deixaram de ser perturbados por registros estarrecedores e as consequências do que acontecia no final de semana passado, enquanto celebrávamos o GP do Brasil no autódromo de Interlagos.
Lembro-me de ter sentido uma espécie de culpa -- vergonha, talvez -- ao entrar no ar logo após o boletim da repórter que cobria a guerra no morro carioca. Minha função era comentar -- e o fiz com certa empolgação -- as chances que Rubens Barrichello tinha de vencer a corrida. Os assuntos definitivamente não se encaixavam.
Ali, a âncora era obrigada a virar a página e mudar de tema, o que sinceramente espero que os ouvintes não tenham feito por muito tempo. Dada a bandeirada final, era hora de deixar o "circo" de lado para sentir o incômodo da ausência do "pão" e seus reflexos. Quando digo pão, não falo de comida apenas, mas de educação, saúde, segurança -- lista que qualquer recém-alfabetizado seria capaz de fazer.
Naqueles dias, postei alguns comentários no Twitter sobre vergonha de ser parte deste tipo de Brasil e recebi de volta algo que não me surpreendeu: "Muda de país, então". Pensamento medíocre, como se tivéssemos só duas opções: vivermos nauseados pelo cheirume que exala nosso lixo social (mas sorrindo, é claro, pois o que é o brasileiro senão um ser feliz?), ou sair correndo para viver um suposto conto de fadas europeu, australiano, americano que seja.
Perdão, caríssimo autor do recado. Por mais que minha nacionalidade seja dupla (espanhola também), rodar o mundo como faço com prazer só me leva a perceber o quanto sou brasileira, tenha eu vergonha ou não, tenha orgulho ou não. Sendo assim, não me resta outra coisa a fazer senão tudo o que puder para mudar o nojento status quo deste país. Não posso te dizer como, não te dou uma lista de tarefas. O que eu e muitos outros sabemos (há mais de 500 anos, talvez?) é que assim, não pode ficar. É incorreto, é injusto, é egoísta. A única coisa que me desanima, de quando em vez, é a ciência de que o egocentrismo está em cada esquina por aqui. Noção de povo falta e muito.
Nesta sexta-feira, o jornalista Francho Barón publicou um belo texto sobre uma triste experiência no jornal El País. Em espanhol, você lê aqui. Em português, aqui.
PS: Este post versa sobre a guerra que explodiu no sábado, dia 17 de outubro de 2009, quando um helicóptero da Polícia Militar foi abatido (?) por traficantes do Morro dos Macacos, no Rio de Janeiro. Este blog torce para que a sensação do "absurdo" não seja enterrada.

Mesmo com essa violência no Rio eu ainda apoio as Olimpíadas e temos que pressionar os governantes para corrigir isso o mais rápido possível.
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