A Frase

" O resultado fica para a história, o jogo bonito passa "

FELIPÃO
, Técnico da Seleção Brasileira, em entrevista coletiva, antes da grande final da Copa das Confederações, diante da Espanha, no Maracanã

terça-feira, 6 de julho de 2010

Como Claudemir se transformou em Helmut: Um Conto de Fadas


STEFAN KUPER

Na noite passada eu sonhei que era um diretor de cinema. O seguinte roteiro me foi apresentado: Um brasileiro do subúrbio de São Paulo, que trabalha vendendo bebidas nos sinais de trânsito, já que a mãe havia se separado do seu pai, que bebia muito. Ele sonha em se tornar um grande jogador de futebol. Aos 18 anos, um conhecido o traz para a Alemanha para ajudar na montagem dos equipamentos de um grupo de samba e então começa a jogar na quinta divisão do futebol alemão.

Depois de um ano, ele passa a ser jogador titular na Bundesliga, a primeira divisâo do campeonato alemão. Em pouco tempo, se sagra campeão, além de jogar na Champions League, a Liga dos Campeões. Recebe a cidadania alemã. Tendo conquistado a confiança do treinador da seleção, é convocado para a Copa do Mundo. No primeiro jogo, ele fica no banco, mas entra no decorrer da partida. Depois de 110 segundos em campo, marca seu primeiro gol na Copa.

Fiquei irritado e joguei o roteiro no chão. Parecia escrito por um amador com todos esses clichês acontecendo ao mesmo tempo. Ridículo.

Cacau
Quando acordei, li no laptop ao meu lado as notícias sobre a Seleção Alemã: “Cacau pronto para jogar”. Cacau! Na verdade, Claudemir Jerônimo Barreto que, em seu primeiro aniversário, apesar dos gritos de “Viva Clauclau!” impôs sua própria versao: “ Viva Cacau!”. Desde então, ele é o Cacau, o homem que me mostrou que a vida pode ser escrita como uma novela, desafiando todas as probabilidades e fazendo com que os sonhos virem realidade.

Cacau é um atacante rápido e habilidoso. Mais do que isto, é versatil e com facilidade, corre atrás da bola no meio de campo. Suas qualidades como um centroavante completo garantiram a ele ser um dos jogadores alemães na Copa, porque, bons cabeceadores, na África do Sul, já temos o bastante, como Klose e Kiessling.

Se Klose precisar de um intervalo durante a sua caça atrás do recorde de gols de Ronaldo (Klose já tem 14 gols, como Gerd Müller), Cacau tomará seu lugar. Há uma semana ele teve um problema muscular, mas contra a Inglaterra, não precisamos dele. O nosso jovem time brilhou e nós tivemos um cego criador de papagaios do Uruguai para nos ajudar. No jogo treino contra a Argentina, a ajuda de Cacau também não foi necessária. Agora que se recuperou bem, Cacau está pronto para jogar pelo time alemão, contra a Espanha. Cacau e Trochowski são os substitutos de Müller, que recebeu o segundo cartão amarelo.

O time
A equipe alemâ nâo é formada por talentos individuais – o grupo é a estrela. Temos muitos jogadores que podem, de fato, fazer gols – de Klose a Podolski. E a partir de agora não podemos poupar Müller e nem nosso pequeno Messi Mesut Özil. E será Khedira ou Schweinsteiger que marcarão o gol decisivo contra a Espanha.

O que é realmente assustador é que os jogadores são muito novos: Müller (20), Özil (21), Khedira (23), Boateng (21), este o meio irmão do capitão da Seleção de Gana, que lesionou Ballack. Poldi (25) e Schweinsteiger (26) já são da casa há mais tempo, mas eles, ao menos, poderão participar de mais uma Copa.

Uma outra força no time alemão é a criatividade. Muito já foi especulado sobre isso, se de fato tinha a ver com a origem dos jogadores. Um comercial na televisão alemã para a integração de imigrantes mostra uma grande casa com jardim, onde um churrasco está acontecendo. Africanos, turcos, alemães, brasileiros estão ali reunidos. A voz no fundo, então, pergunta: “O que essas pessoas têm em comum?”. De repente, todos se juntam em frente à televisão para assistir uma partida de futebol. E a voz continua: “Eles são os pais dos jogadores de futebol da Seleção Alemã”.

A história é verdadeira. Quase a metade dos jogadores imigrou para a Alemanha quando crianças. O Futebol foi para eles uma possibilidade de reconhecimento. Futebol é o coração deles e suas vidas. Finalmente, de novo, uma geração que sobretudo joga futebol, até que não se veja mais a bola à noite, antes da escuridão.

Assim são Podolski, Trochowski e Klose, descendentes de poloneses. Özil e Tasci têm pais turcos. A família de Marin recebeu refúgio da Alemanha durante a guerra civil na Bósnia. Gomez é metade espanhol. O pai de Boateng é de Gana e a raíz do Aogo está na Nigéria. O pai de Khedira é da Tunísia e trabalha há mais de 20 anos em uma fábrica perto de Stuttgart.

A maioria dos pais desses jogadores, de origem humilde, teve que trabalhar duro e exigiu essa mesma postura dos filhos. Eles não conhecem a pobreza como muitas crianças brasileiras, mas têm mais criatividade e vontade incondicional de ganhar que os jovens alemães de origem mais abastada.

O Décimo-Primeiro Homem
Para os dez jogadores chamados, vem ainda um décimo-primeiro. Cacau. Ele realmente sabe o que é a pobreza. Ele a viu em Santo André. Tudo, que eu comecei contando, está ligado à história dele. Depois do divórcio da mãe, além de trabalhar nas ruas, Cacau frequentou uma escola pública e ainda a Escolinha de Futebol do Palmeiras. Foi demais para ele que acabou dispensado.

Logo depois, Cacau passou a jogar pelo Mogi das Cruzes. O treinador nunca deixou de apoiá-lo e, quando Cacau tinha 18 anos, seu destino ficou nas mãos de Osmar, primo do treinador. Osmar è um sambista que mora na Alemanha e esporadicamente negocia jogadores brasileiros. Há 11 anos, Cacau chegou na Alemanha.

No final de semana, antes de Cacau ser negociado, Osmar levou o menino magricela para seu show, já que no período de dois dias em que deixou o menino sozinho em casa, ele tomou mais de 10 litros de Coca-Cola. Foi Osmar quem comprou para ele a primeira escova de dente e cuidou do seu primeiro contrato como jogador profissional na quinta divisão do campeonato alemão – Cacau ganhava agora 500 euros por mês.

Ele sempre foi um bom jogador e agora estava amadurecido, tática e fisicamente. Subiu para a quarta divisão da Bundesliga como reserva do FC Nuremberg (time do jogador Breno, emprestado pelo Bayern e que foi campeão brasileiro em 2007, pelo São Paulo). Aí aconteceu um milagre: Os atacantes do time principal se machucaram e Cacau foi usado para substituí-los, marcando gols. Depois de um ano na Alemanha, ele jogou na Bundesliga, se mudou logo depois para o Stuttgart (o último time de Jens Lehmann), para se tornar campeão alemão e jogar na Champions League.

Da boca de Cacau se escutava aquilo que os outros companheiros do time falavam: A Alemanha dá a chance a alguém. Trabalhe duro e você poderá utilizá-la. The American dream, made in Germany.

A mentalidade do time alemão é caracterizada por pensamentos como estes. É uma mistura de trabalho duro e precisão de um lado, criatividade e ofensividade do outro.

Já antes da sua naturalização, em fevereiro de 2009, Cacau recebeu um outro nome no time de Stuttgart: Helmut. Este não é somente o nome de dois Chanceleres alemães (Helmut Schmidt e o lendário Helmut Kohl), Helmut Rahn marcou o gol decisivo que garantiu a vitória da Alemanha na Copa do Mundo de 1954 e Helmut Schön foi o técnico da Alemanha quando a equipe foi a campeã da Copa do Mundo de 1974. E Cacau agora atende também pelo apelido carinhoso de Helmut, o que mostra que ele está tão integrado ao meio, que pode ser mais alemão que um verdadeiro alemão.

No campo, queremos ver nosso Helmut jogar do jeito brasileiro – porque, para os alemães, o bom futebol é o brasileiro, independente da derrota para a Holanda.

Antes, a mãe de Cacau se dividia na torcida pelo Brasil e Alemanha, mas agora está claro quem é o favorito dela: “Seja qual for o uniforme ou a camisa que ele vista, eu estarei sempre ao lado do meu filho”. Brasil, faça o mesmo – apoie seu último jogador na Copa do Mundo: Lauf, Helmut, lauf! (Corra, Helmut, corra!
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3 comentários:

  1. "Lauf, Helmut, lauf! "
    Texto emocionante que me levou as lágrimas.
    Hoje,como Cacau,que também sou,torço pela Alemanha.
    Que filme lindo!
    Abs!

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  2. Enquanto tantos fazem do futebol uma guerra de egos ou uma disputa de interesses, outros se sobressaem pelo exemplo positivo. A selecao alema tem poloneses, turcos, africanos e o nosso Cacau. Todos alemaes. Todos unidos por um único objetivo, mais do que isto, por serem parte de um país que os recebe de bracos abertos com direito a plena cidadania. Em campo eles mostram o quanto isto faz a diferenca. Um artigo espetacular, escrito por um alemao. Tiro o chapéu!

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  3. Adriano manda traficante pendurar noiva na árvore, Ronaldo é flagrado com 3 travecos, Bruno dá fim na amante. Jogador de futebol agora pode tudo? Igual político. Ainda bem que tem aqueles que ainda nos honram e jogam bola. Está aí o Cacau. Adorei a história.

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